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Sistema integrado para medir, reduzir e governar emissões corporativas.

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Raio-X da gestão de emissões em bebidas

·1 min de leitura

Em bebidas, mais de 90% das emissões estão fora da fábrica. Veja as seis etapas da cadeia, o que medir em cada uma e onde estão as alavancas de redução.

Abra a geladeira de uma padaria em qualquer cidade brasileira. Latas, garrafas PET, vidros retornáveis. Para quem compra, é só uma bebida gelada. Para quem faz a gestão de emissões da marca, são seis etapas diferentes, e quase todas acontecem dentro de outra empresa: a usina que fornece o açúcar, o fabricante da embalagem, a fábrica de envase, a transportadora, o varejista que mantém a geladeira ligada e quem recolhe a embalagem vazia.

Um grande grupo cervejeiro dinamarquês, que publica suas emissões por etapa, mostra o tamanho do desafio. Nas emissões cobertas pela meta climática do grupo em 2025, a embalagem respondeu por 52%, transporte e distribuição por 13%, agricultura por 11%, processamento de matérias-primas por 10% e refrigeração no ponto de venda por 8%. As operações próprias, fábricas incluídas, ficaram com 6%.

Ou seja: mais de 90% das emissões de uma bebida estão fora da fábrica de quem a vende.
Em bebidas, gestão de emissões é, antes de tudo, gestão de cadeia.

Este estudo percorre as seis etapas com três perguntas de gestão: o que medir, quem tem o dado e qual é a alavanca de redução.

1. O campo

Peso nas emissões: cerca de 11% em um grande grupo cervejeiro dinamarquês (2025)
O que medir: volume de cada ingrediente agrícola por origem e a pegada de carbono informada por fornecedor
Quem tem o dado: usinas, tradings e produtores de ingredientes
Alavanca de redução: compra de origens com menor pegada e livres de desmatamento

No açúcar de cana, a pegada mediana global é de 3,2 kg de CO2e por kg, segundo o estudo de Poore e Nemecek (Science, 2018). Cerca de 40% vem da mudança de uso da terra e cerca de um quarto do transporte da commodity.

O Brasil está entre os maiores produtores e exportadores de açúcar do mundo. Uma cana sem desmatamento recente e produzida perto da usina tende a ficar abaixo da mediana global. Mas, sem dado do fornecedor, o inventário de emissões usa a média mundial, e a vantagem desaparece.

É também a etapa que a Science Based Targets initiative (SBTi) trata à parte, com orientação específica para emissões de florestas, uso da terra e agricultura (FLAG), que inclui o compromisso de desmatamento zero.

Na gestão: trocar a média global pelo dado do fornecedor é o primeiro passo para que a redução no campo apareça no inventário.

2. A embalagem

Peso nas emissões: 52% em um grande grupo cervejeiro dinamarquês (2025, fabricação e descarte); mais de 30% do Escopo 3 em um grande grupo japonês de bebidas (2024)
O que medir: massa de cada material por produto, conteúdo reciclado e taxa de retorno das embalagens retornáveis
Quem tem o dado: fabricantes de embalagem, área de compras e engenharia de produto
Alavanca de redução: formato e peso da embalagem, conteúdo reciclado e participação de retornáveis

A embalagem é a maior fatia das emissões do grupo dinamarquês e passa de 30% do Escopo 3 do grupo japonês. É também onde a gestão tem mais alavancas sob controle direto da marca.

No alumínio, reciclar consome cerca de 5% da energia da produção primária, segundo o International Aluminium Institute. E o Brasil parte de uma base forte: o índice de reciclagem de latas está acima de 95% há mais de 15 anos (Abralatas).

Na gestão: emissão por produto e por embalagem transforma cada decisão de portfólio em redução mensurável.

3. A fábrica

Peso nas emissões: 6% nas operações próprias de um grande grupo cervejeiro dinamarquês (2025)
O que medir: eletricidade, combustíveis e gases refrigerantes de cada unidade (Escopos 1 e 2)
Quem tem o dado: a própria empresa e, quando o envase é feito por terceiros, o engarrafador parceiro
Alavanca de redução: eficiência energética, troca de combustível e energia renovável

A fábrica é a etapa mais visível, a mais fácil de medir e uma das menores da conta. No Brasil, tende a pesar ainda menos, porque a matriz elétrica nacional é majoritariamente renovável, segundo o Balanço Energético Nacional da EPE.

É, porém, a etapa que entra primeiro no radar regulatório. A Lei nº 15.042/2024, que cria o mercado regulado brasileiro (SBCE), prevê monitoramento e relato de emissões para quem emite mais de 10 mil toneladas de CO2e por ano.

Na gestão: Escopos 1 e 2 bem medidos preparam a empresa para o mercado regulado, mas cobrem a menor parte das emissões.

4. A distribuição

Peso nas emissões: 13% em um grande grupo cervejeiro dinamarquês (2025)
O que medir: toneladas por quilômetro, tipo de veículo e combustível, separando frota própria (Escopo 1) e terceirizada (Escopo 3)
Quem tem o dado: transportadoras, operadores logísticos e distribuidores
Alavanca de redução: roteirização, ocupação de carga, troca de combustível e embalagem mais leve

Bebida é produto pesado, de giro rápido e distribuição capilar, do centro de distribuição ao pequeno varejo. Em outro grande grupo japonês de bebidas, só o transporte que chega à empresa responde por cerca de 10% do Escopo 3.

Aqui, embalagem e logística conversam: cada grama a menos por litro reduz duas linhas do inventário ao mesmo tempo.

Na gestão: dado de rota e combustível das transportadoras substitui estimativa por distância média.

5. A geladeira

Peso nas emissões: cerca de 8% em um grande grupo cervejeiro dinamarquês (2025)
O que medir: parque de equipamentos instalados, consumo de energia por modelo e tipo de gás refrigerante
Quem tem o dado: área comercial ou de trade marketing, fornecedores de equipamentos e varejistas
Alavanca de redução: substituição por modelos eficientes e gases de baixo impacto climático

É o ponto cego mais comum. A geladeira leva a marca da bebida, fica na loja do varejista e consome energia todos os dias. No inventário de quem vende a bebida, ela costuma aparecer no Escopo 3, fora das operações próprias.

É também uma das reduções mais fáceis de comprovar. O mesmo grupo dinamarquês registrou ganho de eficiência de mais de 35% nas geladeiras compradas entre 2022 e 2025. Segundo diretrizes do Pnuma para refrigeração comercial, um equipamento ineficiente pode consumir mais de 10 mil kWh por ano, enquanto os melhores modelos consomem menos de um quinto disso.

E há o gás refrigerante: pela Emenda de Kigali, promulgada pelo Brasil em 2023, o país segue um cronograma de redução de HFCs que congelou o consumo em 2024 e chega a um corte de 80% em 2045.

Na gestão: o inventário do parque de geladeiras gera um dos projetos de redução mais rápidos de medir e de reportar.

6. O retorno

Marco legal no Brasil: Decreto nº 12.688/2025, com metas crescentes de recuperação de embalagens plásticas até 2040
O que medir: massa colocada no mercado, massa recuperada e participação de retornáveis
Quem tem o dado: entidades gestoras, cooperativas e recicladores
Alavanca de redução: retornáveis e conteúdo reciclado

O fim de vida fecha o ciclo e, no Brasil, ganhou metas. O Decreto nº 12.688/2025 instituiu a logística reversa de embalagens plásticas, com metas anuais de recuperação sobre a massa colocada no mercado. O decreto também valoriza o retornável: cada 5% de embalagens retornáveis coletadas reduz a meta de recuperação em um ponto, até a metade da meta.

Na Europa, o regulamento de embalagens (PPWR, Regulamento (UE) 2025/40) determina que, a partir de 2030, distribuidores finais ofereçam ao menos 10% das bebidas em embalagem reutilizável.

Na gestão: o mesmo dado de logística reversa alimenta o inventário de emissões e a comprovação das metas legais.

O que o raio-X revela para a gestão

A meta climática se cumpre na cadeia

Com mais de 90% das emissões fora da fábrica, um plano de redução restrito às operações próprias atua sobre uma fração pequena do problema. A gestão de emissões em bebidas precisa de inventário com Escopo 3 completo e de engajamento de fornecedores, engarrafadores e varejo.

Sem dado primário, a redução não aparece

Quando o Escopo 3 é calculado com fatores médios de gasto, a redução feita por um fornecedor não muda o número, e um aumento de preço parece aumento de emissão.

Coletar dado real de quem produz é o que transforma esforço da cadeia em resultado no inventário, e preserva vantagens brasileiras como a cana, a eletricidade renovável e a reciclagem de latas.

Priorizar por custo de abatimento

Embalagem, retornáveis, geladeiras, frota e origem de ingredientes competem pelo mesmo orçamento. Uma curva de custo marginal de abatimento (curva MAC) mostra quais projetos entregam mais redução por real investido e em que ordem executá-los.

Relatar com consistência

O relato chega por vários lados: o mercado regulado, as metas da SBTi, as exigências de clientes e importadores e o mercado de capitais. Um único inventário bem estruturado atende a todas essas frentes.

Conclusão

No setor de bebidas, gerir emissões é coordenar dados de dezenas de empresas e transformá-los em decisões de produto, compra e investimento.

Quem faz isso com dado real negocia melhor com fornecedores, responde com segurança a investidores e reguladores e converte vantagens brasileiras em números que aparecem no relatório.

Na Planton, a gestão de emissões começa pelo inventário com Escopo 3 completo. Com o Planton Genius, fornecedores e parceiros enviam os dados no formato que já têm, e a IA organiza a coleta. A partir daí, calculamos a pegada de carbono por produto e embalagem e montamos a jornada de descarbonização com a curva MAC, mostrando quais projetos entregam mais redução por real investido.

Fontes

  • Poore, J. e Nemecek, T. (2018). Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. Science, 360(6392), 987-992. Dados via Our World in Data: “Food: greenhouse gas emissions across the supply chain”.
  • Pnuma/UNEP United for Efficiency. Model Regulation Guidelines for Energy-Efficient and Climate-Friendly Commercial Refrigeration Equipment (2021).
  • International Aluminium Institute. Aluminium recycling saves 95% of the energy needed for primary aluminium production.
  • Abralatas. Relatório Setorial ESG.
  • Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Balanço Energético Nacional.
  • Lei nº 15.042, de 11 de dezembro de 2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE).
  • Decreto nº 12.688, de 21 de outubro de 2025 (logística reversa de embalagens plásticas).
  • Decreto nº 11.666, de 24 de agosto de 2023 (promulga a Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal) e Ministério do Meio Ambiente, cronograma brasileiro de redução de HFCs.
  • Regulamento (UE) 2025/40 (PPWR) e Comunicação da Comissão C/2026/3084 (orientações sobre o regulamento).
  • Science Based Targets initiative. FLAG Science-Based Target Setting Guidance.
  • Plano de transição climática de grande grupo cervejeiro dinamarquês (dados de 2025).
  • Relatório de sustentabilidade de grande grupo japonês de bebidas (dados de 2024) e relatório ambiental de outro grande grupo japonês de bebidas.