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Nos alimentos, 81% do carbono nasce antes da indústria

·1 min de leitura

Na agroindústria de alimentos, a maior parte da pegada chega com a matéria-prima. Veja onde o carbono se concentra e o que regulação e compradores vão exigir.

Setor: Agroindústria de alimentos

Um dos maiores levantamentos já feitos sobre o impacto ambiental dos alimentos, publicado na revista Science, chegou a uma conclusão direta. A etapa da fazenda responde por 61% das emissões de gases de efeito estufa da comida. Somado o desmatamento, esse número chega a 81%.

Outro estudo, publicado na Nature Food, mostra a dimensão do tema. Os sistemas alimentares respondem por cerca de um terço das emissões globais causadas pelo homem. Desse total, 71% vêm da agricultura e do uso da terra.

Onde o carbono se concentra

Na agroindústria, a maior parte da pegada não passa pela linha de produção. Ela chega junto com a matéria-prima: o grão, o leite, o boi, a cana, o cacau.

E essa matéria-prima varia muito. O mesmo estudo da Science mostra que o impacto de um mesmo produto pode variar 50 vezes entre produtores. Na pecuária de corte, os 25% de produtores com maior impacto respondem por 56% das emissões do rebanho.

Para a indústria, isso muda a pergunta. A eficiência da fábrica importa, mas o que define a maior parte da pegada é de quem ela compra.

Regulação e padrões de mercado

Lei 15.042, de 11 de dezembro de 2024. Criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Instalações acima de 10 mil tCO2e por ano precisam apresentar plano de monitoramento e relato de emissões. Acima de 25 mil tCO2e por ano, também precisam fazer a conciliação periódica de obrigações. A lei exclui a produção primária agropecuária. Ou seja, as emissões do campo ficam fora do mercado regulado, mas continuam no inventário de escopo 3 de quem compra a matéria-prima.

Regulamento Europeu Antidesmatamento (UE 2023/1115). Vale para gado, soja, café, cacau, óleo de palma, borracha e madeira, além de derivados como o chocolate. O produto precisa vir de área sem desmatamento depois de 31 de dezembro de 2020. Para comprovar, o operador precisa ter a geolocalização da área onde a matéria-prima foi produzida.

GHG Protocol, Land Sector and Removals Standard. Tem vigência a partir de 1º de janeiro de 2027 e vale para empresas que compram, processam ou vendem quantidades significativas de produtos agrícolas. Exige reportar a ocupação de terra em hectares e reportar remoções separadas das emissões. Também liga a precisão do dado à rastreabilidade da origem.

SBTi, metas FLAG. Empresas de processamento de alimentos e bebidas são obrigadas a definir metas para emissões de florestas, uso da terra e agricultura. O compromisso de desmatamento zero é condição obrigatória para essas metas.

Leitura prática: as quatro frentes apontam para o mesmo lugar. A agroindústria precisa saber de onde vem a matéria-prima e quanto carbono ela carrega. A média de mercado deixa de ser suficiente.

O cenário brasileiro e a lacuna

No Brasil, a agropecuária, somada ao desmatamento e a outras mudanças de uso da terra, responde pela maior parte das emissões do país. Ao mesmo tempo, a indústria de alimentos é a maior empregadora da indústria de transformação, e o Brasil está entre os maiores exportadores de alimentos industrializados do mundo.

O campo já tem ferramentas para medir. A Embrapa desenvolveu protocolos de baixo carbono para produtos como carne, soja e milho, com foco na intensidade de emissões do que é produzido.

O que falta é a ponte. A indústria recebe a matéria-prima de centenas ou milhares de fornecedores e precisa transformar esse dado de origem em inventário de escopo 3 e em pegada de produto. É esse elo que o cliente, o investidor e o comprador internacional vão pedir.

Benchmarks internacionais

Um grande grupo suíço de alimentos. O roteiro climático da empresa mostra que a compra de ingredientes responde pela maior parte das suas emissões, e que lácteos e pecuária são a maior fonte isolada. As frentes de ação estão quase todas fora da fábrica: agricultura regenerativa, cadeias livres de desmatamento e trabalho direto com produtores em manejo de rebanho, alimentação animal e biogás de dejetos.

Uma grande cooperativa dinamarquesa de laticínios. As fazendas dos cooperados passam por uma avaliação anual de práticas de sustentabilidade. Com base nesses dados, cada produtor acumula pontos por práticas que reduzem emissões, e os pontos viram um adicional no preço do leite. O modelo sustenta a meta de redução de emissões FLAG da cooperativa, validada pela SBTi. Aqui o dado do fornecedor deixou de ser obrigação e passou a ser preço.

Conclusão

Na agroindústria de alimentos, o carbono é decidido sobretudo na origem da matéria-prima. A empresa que conhece seus fornecedores consegue mostrar ao cliente uma pegada medida, e não estimada, e consegue direcionar a redução para onde ela de fato acontece. Num mercado em que compradores, investidores e importadores pedem rastreabilidade, esse dado deixa de ser relatório e passa a ser vantagem comercial.

A Planton organiza o inventário de emissões no Planton Genius e engaja a cadeia de fornecedores no programa de Escopo 3, conectando o dado do campo à gestão de emissões da indústria.

Fontes

  • Poore, J.; Nemecek, T. Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. Science, 360(6392), 987-992.
  • Crippa, M. et al. Food systems are responsible for a third of global anthropogenic GHG emissions. Nature Food.
  • SEEG, Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa. Relatório analítico.
  • ABIA, Associação Brasileira da Indústria de Alimentos. Dados do setor.
  • Embrapa. Protocolos de produção de baixo carbono (carne, soja e milho).
  • Lei nº 15.042, de 11 de dezembro de 2024 (Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões).
  • Regulamento (UE) 2023/1115 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 31 de maio de 2023 (produtos livres de desmatamento).
  • GHG Protocol. Land Sector and Removals Standard.
  • Science Based Targets initiative. Forest, Land and Agriculture (FLAG).
  • Roteiro climático de grande grupo suíço de alimentos.
  • Modelo de incentivo de sustentabilidade de grande cooperativa dinamarquesa de laticínios.