Em máquinas agrícolas, menos de 1% do carbono sai da fábrica
Em três grandes fabricantes globais, as fábricas emitem menos de 1% da pegada. O carbono está no aço comprado e no diesel que a máquina queima no campo.

Setor: Máquinas e implementos agrícolas
Olhamos os inventários de três grandes fabricantes globais de máquinas agrícolas. Em todos eles, as fábricas (escopos 1 e 2) respondem por menos de 1% das emissões. O resto está no aço e nos componentes comprados e, principalmente, no diesel que as máquinas vão queimar no campo ao longo da vida útil. Em um grande fabricante americano, o uso dos produtos vendidos representou cerca de 93% da pegada total em 2025.
Para quem fabrica máquinas, a pergunta deixou de ser quanto a fábrica emite. A pergunta agora é quanto cada máquina emite depois de vendida.
O carbono está no campo, não no galpão
O inventário de um fabricante de máquinas tem três grandes blocos:
- Fábrica (escopos 1 e 2): energia, combustíveis e frota própria. Nos três casos analisados, fica abaixo de 1% do total.
- Compras (escopo 3, categoria 1): aço, motores, pneus, eletrônica. Representou cerca de 7% da pegada em um fabricante e cerca de 17% do escopo 3 em outro. Só o aço já pesa: a média global é de 1,92 tonelada de CO2 por tonelada de aço bruto produzido, segundo a worldsteel (2024).
- Uso dos produtos vendidos (escopo 3, categoria 11): o diesel queimado por tratores, colheitadeiras e pulverizadores autopropelidos. Ficou entre 76% e 93% nos casos analisados.
A categoria 11 tem uma regra que muda a gestão. Pelo GHG Protocol, ela soma todas as emissões esperadas ao longo da vida útil dos produtos vendidos no ano. Na prática, o número absoluto sobe e desce com o volume de vendas. Um ano de vendas fracas parece descarbonização. Um ano de vendas fortes parece retrocesso. Por isso, quem gere esse dado de verdade acompanha a intensidade, ou seja, as emissões por máquina, por hora de operação ou por hectare trabalhado.
E quem fabrica implementos?
Para implementos sem motor próprio (semeadoras, plantadeiras, grades, cultivadores), a lógica muda. O GHG Protocol exige contabilizar as emissões de uso direto, as de produtos que consomem energia. As emissões de uso indireto, como o diesel do trator que puxa o implemento, são opcionais. Sem uma categoria de uso direto, o aço e os componentes comprados tendem a ser a maior fonte do inventário.
Uma coisa não muda: o desenho do implemento interfere no consumo do trator que o puxa. É um dado que o cliente valoriza e que poucos fabricantes já medem.
O escopo 3 do fabricante é o escopo 1 do produtor
O diesel que entra na categoria 11 do fabricante é emissão direta da fazenda. No Brasil, o uso de energia na agropecuária emitiu 22,5 milhões de toneladas de CO2e em 2024, segundo o SEEG. Produtores, cooperativas, tradings e agroindústrias que fazem inventário próprio precisam de fatores de emissão por operação. Quem tem esse dado com mais precisão é o fabricante.
Calendário regulatório
Lei nº 14.993/2024, Combustível do Futuro (8 de outubro de 2024). A lei fixou a mistura de biodiesel em 15% a partir de 1º de março de 2025, com aumento de um ponto por ano até 20% em março de 2030. O CNPE pode ajustar o percentual entre 13% e 25%. Qualquer degrau acima de 15% depende de viabilidade técnica comprovada, e o degrau de 16%, previsto para março de 2026, ainda dependia de testes na última atualização pública, em meados de 2026. Para o fabricante, isso tem dois efeitos. O fator de emissão da fase de uso muda a cada degrau. E a compatibilidade do motor com misturas mais altas vira atributo de produto.
Lei nº 15.042/2024, SBCE (11 de dezembro de 2024). Cria o mercado regulado de carbono. Instalações acima de 10 mil tCO2e por ano terão de monitorar e relatar emissões. Acima de 25 mil, também terão de entregar ativos equivalentes às suas emissões. A proposta preliminar de cobertura setorial do Ministério da Fazenda, levada a consulta pública em julho de 2026, coloca ferro e aço na primeira etapa de relato, a partir de 2027. A fabricação de máquinas não aparece na lista proposta. Na leitura estratégica, o carbono chega primeiro pelo aço, que vai passar a ter emissão medida e relatada por regra, e só depois pela fábrica.
Resolução CVM nº 193/2023, alterada pela Resolução CVM nº 244 (29 de maio de 2026). O relatório de sustentabilidade no padrão ISSB (IFRS S1 e S2) passou a ser voluntário para companhias abertas. A partir de 1º de janeiro de 2027, quem não publicar terá de justificar a decisão ao mercado. O IFRS S2 inclui o escopo 3 na divulgação. Para um fabricante de máquinas, isso significa a categoria 11.
O que já vale hoje, na prática: a pressão não chega por uma lei sobre a máquina. Chega pela cadeia. O aço vai ser medido. Os clientes listados precisam explicar o que não divulgam. E o produtor que faz inventário precisa saber quanto emite cada operação.
O cenário brasileiro e a lacuna
O setor de máquinas e implementos agrícolas faturou mais de R$ 60 bilhões em 2025, segundo a ABIMAQ, com mais de 50 mil tratores vendidos no mercado interno. A agropecuária responde por 5% do consumo final de energia do país (Balanço Energético Nacional 2026, ano-base 2025).
A ficha técnica de uma máquina já informa potência e consumo. O que ela não entrega é a conversão desse consumo em emissão por hora, por hectare ou por safra, nem a pegada do aço e dos componentes que entraram na máquina. É essa diferença que separa um catálogo de um argumento de venda para o cliente que precisa reduzir o próprio escopo 1.
Benchmarks internacionais
Um grande fabricante americano de máquinas agrícolas e de construção. No ano fiscal de 2025, as fábricas emitiram cerca de 514 mil tCO2e (escopos 1 e 2). As compras somaram cerca de 5,1 milhões, e o uso dos produtos vendidos, cerca de 70 milhões, 93% da pegada. A empresa tem meta de reduzir em 30% as categorias 1 e 11 até 2030 (base 2021) e reporta queda de cerca de 26% até aqui, com verificação limitada de auditoria independente. O dado granular mostra onde está a alavanca: cortar 37% na fábrica, como a empresa fez, mexe em menos de um ponto percentual do total.
Um grupo global de máquinas agrícolas e de construção, de origem ítalo-americana. Em 2025, as fábricas emitiram 137.779 tCO2e. As máquinas entregues no mesmo ano devem emitir 37,8 milhões de tCO2e ao longo da vida útil, mais de 90% da pegada estimada. Pelo próprio relatório, a empresa desenvolve uma colhedora de cana movida 100% a etanol, com redução estimada de cerca de 90% nas emissões frente ao diesel. É um exemplo de produto em que o dado de carbono vira diferencial comercial.
Um fabricante americano de tratores e máquinas agrícolas. Em 2025, o uso dos produtos vendidos somou 15,2 milhões de tCO2e (76% do escopo 3), e as compras, 3,4 milhões (17%). Entre 2023 e 2025, a categoria 11 caiu cerca de 29%. Como a categoria soma a vida útil das máquinas vendidas no ano, o número absoluto acompanha o volume comercializado. É por isso que só a métrica por máquina mostra se o produto ficou, de fato, mais eficiente.
Uma fabricante sueca de implementos de plantio e preparo de solo. Reportou 5.662 tCO2e nas fábricas (escopos 1 e 2) no ano fiscal de 2024. No escopo 3, que cobre o ciclo de vida das máquinas, declarou que o trabalho começou e que ainda não há resultados. Reconhece que o aço é sua principal fonte de impacto. Até entre os mais estruturados, o inventário completo de implementos está no início.
Conclusão
Em máquinas agrícolas, o inventário que olha só para a fábrica mede menos de 1% do problema. O cliente, o investidor e o mercado de crédito vão olhar para o que a máquina emite no campo e para o aço que a compõe. Quem tiver esse dado por produto vai vender eficiência com número, não com adjetivo.
A Planton mede exatamente essa parte: inventário com escopo 3 completo, pegada de carbono por modelo de máquina (ISO 14067) e curva MAC para priorizar o que reduz mais, com a coleta de dados de fornecedores simplificada pelo Planton Genius.
Fontes
- GHG Protocol, Corporate Value Chain (Scope 3) Standard e Technical Guidance for Calculating Scope 3 Emissions, capítulo 11 (uso de produtos vendidos)
- worldsteel, Sustainability Indicators 2025 (intensidade de CO2 do aço, 2024)
- SEEG, Análise das emissões de gases de efeito estufa e suas implicações, Relatório Analítico 13 (2026), dados de 2024
- EPE, Balanço Energético Nacional 2026, Relatório Síntese, ano-base 2025
- ABIMAQ, Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas, resultados de 2025
- Lei nº 14.993, de 8 de outubro de 2024 (Combustível do Futuro), que altera a Lei nº 13.033/2014
- Lei nº 15.042, de 11 de dezembro de 2024 (SBCE)
- Ministério da Fazenda, proposta preliminar de cobertura setorial do mercado regulado de carbono (maio de 2026) e consulta pública (julho de 2026)
- Resolução CVM nº 193, de 20 de outubro de 2023, alterada pela Resolução CVM nº 244, de 29 de maio de 2026
- IFRS S2, Climate-related Disclosures (ISSB, 2023)
- Relatório de sustentabilidade de grande fabricante americano de máquinas agrícolas e de construção, ano fiscal de 2025
- Relatório de sustentabilidade de grupo global de máquinas agrícolas e de construção, de origem ítalo-americana, 2025
- Caderno de dados de sustentabilidade de fabricante americano de tratores e máquinas agrícolas, 2025
- Relatório de sustentabilidade de fabricante sueca de implementos agrícolas, 2024





