Nas telecomunicações, três quartos do carbono estão na cadeia de valor
As operadoras móveis emitem quase três vezes mais na cadeia de valor do que nas próprias operações. A próxima etapa da gestão de emissões está fora da rede.

Setor: Telecomunicações
Em 2024, as operadoras móveis do mundo emitiram cerca de 115 milhões de toneladas de CO2e nas próprias operações (Escopos 1 e 2). Na cadeia de valor, a conta foi quase três vezes maior: cerca de 310 milhões de toneladas de Escopo 3, aproximadamente três quartos do total do setor. Os números são do relatório Mobile Net Zero 2026, da GSMA, a associação global das operadoras móveis.
O mesmo relatório traz uma boa notícia. Entre 2019 e 2024, as emissões operacionais caíram 13%. No mesmo período, as conexões cresceram 10% e o tráfego de dados mais do que quadruplicou. A rede ficou mais eficiente. A próxima etapa da gestão de emissões está fora dela.
A rede é o que se mede primeiro, mas não é onde está a maior parte do carbono
É natural que o inventário de uma operadora comece pela energia. Segundo a GSMA, as redes respondem por mais de três quartos do consumo de eletricidade da maioria das operadoras. O setor móvel consumiu cerca de 300 TWh em 2024, perto de 1% da eletricidade do mundo. A fatia de energia renovável comprada ou gerada pelas operadoras passou de 10% em 2019 para 24% em 2024.
A maior parte da pegada, porém, está no que a operadora compra e no que ela vende. Mais de 70% do Escopo 3 do setor se concentra em quatro categorias do GHG Protocol:
Categoria 1, bens e serviços comprados: o que a operadora compra para funcionar, de serviços a insumos.
Categoria 2, bens de capital: antenas, cabos de fibra, equipamentos de rede e data centers.
Categoria 3, atividades ligadas a combustível e energia: as emissões da produção e da distribuição da energia que a operadora usa.
Categoria 11, uso dos produtos vendidos: a energia consumida por aparelhos, modems e roteadores na casa do cliente.
Ou seja, o carbono de uma operadora depende muito das decisões de compra, de engenharia de rede e de portfólio de aparelhos.
O calendário que já está valendo
Recomendação ITU-T L.1470 (fevereiro de 2020). Define a trajetória de redução de emissões do setor de tecnologia da informação e comunicação compatível com o Acordo de Paris: 45% de redução entre 2020 e 2030. A norma foi desenvolvida pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) com a GSMA, a GeSI e a Science Based Targets initiative (SBTi). Ela traz trajetórias separadas para operadoras móveis, operadoras fixas e data centers.
Critérios da SBTi para metas de curto prazo. Quando o Escopo 3 representa 40% ou mais das emissões totais, ele precisa entrar na meta (critério C4). As metas também precisam cobrir pelo menos 67% do Escopo 3 (critério C6). Em um setor em que o Escopo 3 fica perto de 75%, não existe meta validada sem dado de cadeia. Segundo a GSMA, mais de 75 operadoras já têm metas de curto prazo validadas, e elas representam mais de dois terços da receita do setor.
Diretiva (UE) 2026/470, o pacote Omnibus I (em vigor desde 18 de março de 2026). Ela restringiu a CSRD, a diretiva europeia de relato de sustentabilidade, às empresas com mais de 1.000 funcionários e mais de 450 milhões de euros de faturamento. Grupos de fora da União Europeia entram quando faturam mais de 450 milhões de euros dentro do bloco. Os Estados-membros têm até 19 de março de 2027 para incorporar as regras. Para quem opera no Brasil sob uma matriz europeia, o relatório consolidado do grupo continua pedindo os dados das subsidiárias.
Resolução CVM 244 (29 de maio de 2026). Tornou facultativo o relatório de sustentabilidade no padrão IFRS S1 e S2, que a Resolução CVM 193 havia tornado obrigatório para companhias abertas. Quem decidir publicar precisa seguir os padrões CBPS e ISSB e manter o relato por pelo menos três exercícios seguidos.
Lei 15.042/2024, o SBCE (mercado regulado de carbono brasileiro). Instalações que emitem mais de 10 mil tCO2e por ano terão de monitorar e relatar suas emissões. Acima de 25 mil tCO2e por ano, também terão de entregar cotas de emissão. A proposta de cronograma setorial ficou em consulta pública de 28 de julho a 28 de agosto de 2026. Ela prevê três etapas: a partir de 2027, até 2029 e até 2031. Telecomunicações não aparece na lista, mas o setor elétrico, de onde vem a energia das redes, entra na segunda etapa. A regulamentação final ainda não foi publicada.
Leitura estratégica. A pressão sobre as telecomunicações não vem de uma obrigação direta no Brasil. Ela vem de três frentes: as metas validadas pela SBTi, as matrizes e os investidores internacionais, e os próprios clientes corporativos. Toda empresa que contrata conectividade inclui esse serviço no próprio Escopo 3. Quando esses clientes refinam o inventário, a operadora passa a receber pedidos de dado específico, e não de estimativa.
O cenário brasileiro e a lacuna
O Brasil tem mais de 270 milhões de acessos de telefonia móvel, sendo mais de 60 milhões de linhas 5G, e mais de 55 milhões de acessos de banda larga fixa. Mais de 80% da banda larga fixa já é por fibra óptica. Os dados são do relatório de monitoramento da competição da Anatel referente ao segundo trimestre de 2026. Construir 5G e fibra nessa escala exige um volume enorme de bens de capital, justamente uma das categorias que mais pesam no Escopo 3.
Há outro fator próprio do país. A matriz elétrica brasileira foi 86,8% renovável em 2025, segundo o Balanço Energético Nacional 2026 da EPE. Isso deixa as emissões de energia (Escopo 2) estruturalmente baixas pelo método baseado em localização. Por isso, no Brasil, a cadeia de valor tende a pesar ainda mais na pegada total de uma operadora.
A infraestrutura de relato existe, mas cobre melhor a operação do que a cadeia. O relatório Greening Digital Companies 2026, da UIT e da World Benchmarking Alliance, avaliou 200 empresas digitais no mundo. Só 47% delas relataram emissões de todas as categorias relevantes da cadeia de valor. Quando o Escopo 3 é estimado só pelo valor gasto com cada fornecedor, a operadora não consegue mostrar o efeito de trocar de fornecedor ou de equipamento. Esse efeito só aparece com dado específico, fornecedor por fornecedor.
O que mostram os grandes grupos internacionais
Um grande grupo britânico de telecomunicações informou que, no exercício 2024/25, o Escopo 3 representou 81% da sua pegada total. No ano anterior, o número publicado havia sido 95%. A diferença veio de uma decisão de método: o grupo passou a usar o cálculo do Escopo 2 baseado em localização para a sua meta operacional. Três categorias concentram 80% do Escopo 3 do grupo: bens e serviços comprados, bens de capital e uso dos produtos vendidos. A lição é que o percentual consolidado muda com o método de cálculo. O dado por categoria é o que permite gerir a pegada de fato.
Um grande grupo alemão de telecomunicações compra 100% da sua eletricidade de fontes renováveis desde 2021, pelo método baseado em mercado. Em 2025, suas emissões de Escopos 1 e 2 somaram cerca de 240 mil toneladas de CO2e. A energia gasta por terabyte trafegado caiu de 57 kWh em 2024 para 48 kWh em 2025, uma redução de 16%. Mesmo assim, a meta do grupo para 2030 é reduzir em 55% as emissões dos Escopos 1 a 3 em relação a 2020, e até agora o Escopo 3 caiu cerca de 26,6% frente ao ano-base. Com a eletricidade já limpa, o que falta para cumprir a meta está na cadeia.
O setor como um todo ainda está abaixo da trajetória. Segundo a UIT, 14 grandes operadoras de telecomunicações reduziram suas emissões em 11% entre 2020 e 2024. Se a meta de 45% até 2030 fosse dividida em partes iguais, a redução esperada para o mesmo período seria de cerca de 18%.
Conclusão
Nas telecomunicações, eficiência de rede e energia renovável já são práticas consolidadas e mostram resultado. A vantagem agora está com quem consegue mostrar o carbono de cada fornecedor, de cada equipamento e de cada produto vendido. A operadora que mede a cadeia com dado específico responde mais rápido a investidores, matrizes e clientes, e escolhe com precisão onde investir na redução.
A Planton fecha essa lacuna com o Planton Genius, que lê os dados dos fornecedores no formato em que eles já existem. O inventário de Escopo 3 vira uma curva MAC com os projetos de redução de maior retorno para cada operação.
Fontes
- GSMA, Mobile Net Zero 2026.
- União Internacional de Telecomunicações (UIT), Recomendação ITU-T L.1470, fevereiro de 2020.
- Science Based Targets initiative (SBTi), critérios para metas corporativas de curto prazo (C4 e C6).
- Diretiva (UE) 2026/470 (Omnibus I), Jornal Oficial da União Europeia.
- Comissão de Valores Mobiliários, Resolução CVM 193/2023 e Resolução CVM 244, de 29 de maio de 2026.
- Lei 15.042, de 11 de dezembro de 2024 (SBCE), e consulta pública da proposta de cronograma setorial (28 de julho a 28 de agosto de 2026).
- Anatel, relatório de monitoramento da competição, segundo trimestre de 2026.
- Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Balanço Energético Nacional 2026.
- UIT e World Benchmarking Alliance, Greening Digital Companies 2026.
- Relatório de sustentabilidade de grande grupo britânico de telecomunicações, exercício 2024/25.
- Relatório de sustentabilidade de grande grupo alemão de telecomunicações, 2025.





