Na hotelaria, o carbono por quarto cai e o total sobe
Na hotelaria, a eficiência por quarto melhora enquanto as emissões totais sobem. O cliente passou a pedir o número completo, com comida, franquias e resíduos.

Setor: Hotelaria e hospitalidade
Segundo a World Sustainable Hospitality Alliance, o setor hoteleiro responde por cerca de 1% das emissões globais de carbono, e essa parcela tende a crescer. A mesma entidade calculou que cada quarto precisaria emitir 66% menos até 2030 e 90% menos até 2050 só para que a abertura de novos hotéis não aumente a conta total. Um grande grupo hoteleiro britânico mostra o tamanho dessa distância. Em 2025, ele reduziu em 11% as emissões por quarto disponível em relação a 2019. No mesmo período, o total absoluto subiu 7,7%. Ser eficiente por quarto não basta quando o número de hotéis cresce.
A métrica que o mercado pede mede só uma parte da conta
Desde 2012, a hotelaria tem uma metodologia comum de medição: a Hotel Carbon Measurement Initiative (HCMI). Ela foi criada pela World Sustainable Hospitality Alliance (então International Tourism Partnership) e pelo World Travel & Tourism Council, junto com 23 grandes empresas do setor. Hoje, mais de 30 mil hotéis usam a ferramenta. Ela calcula a pegada por quarto ocupado por dia e por área de sala de evento por hora, e foi pensada para responder aos pedidos de clientes corporativos em concorrências.
O limite dessa métrica é o consumo do prédio: gás, combustíveis, eletricidade comprada, gases refrigerantes e lavanderia terceirizada. O que o hóspede come fica de fora, e a comida pesa. Num grande grupo hoteleiro francês, a alimentação responde por 17% da pegada de carbono. Em 2023, o desperdício de alimentos foi cerca de 53% de todo o resíduo do grupo, algo como 20 toneladas por hotel em média.
O dado global confirma a escala. Segundo o Food Waste Index Report 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o mundo desperdiçou 1,05 bilhão de toneladas de alimentos em 2022. Desse total, 28% saíram do food service, o setor de alimentação fora de casa. Perdas e desperdício de alimentos somam de 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa por ano.
Na franquia, o dado do hotel entra no inventário da marca
Existe uma segunda camada. Quando a marca não é dona nem operadora do prédio, como na franquia, as emissões do hotel franqueado entram no inventário da bandeira como escopo 3, categoria 14 (franquias). No grupo britânico citado na abertura, pouco mais da metade das emissões cobertas pela meta climática vem de franqueados que operam seus hotéis de forma independente.
O Brasil segue na mesma direção. Segundo o Panorama da Hotelaria Brasileira, da HotelInvest com o FOHB, a franquia passou de 32% para 45% dos quartos (UHs) do pipeline de novos hotéis entre 2023 e 2026. No mesmo período, a administração caiu de 57% para 48%. Na prática, cada vez mais proprietários brasileiros vão operar hotéis cujas emissões outra empresa precisa relatar. Quem entrega um dado de qualidade reduz o atrito com a bandeira. Quem não entrega vira estimativa na planilha dela.
A pressão chega pelo cliente, não pela lei
Hoje, nenhuma norma brasileira obriga um hotel a publicar inventário de emissões. A Resolução CVM 244, de 29 de maio de 2026, tornou voluntária a divulgação nos padrões IFRS S1 e S2 para companhias abertas. Quem escolher divulgar se compromete por no mínimo três exercícios.
A pressão chega por outros três caminhos.
O primeiro é o cliente corporativo. O GHG Protocol permite que as empresas incluam as diárias de hotel no escopo 3, categoria 6 (viagens a negócios), multiplicando o número de noites por um fator de emissão por diária. Quando o hotel não fornece o próprio número, o cliente usa uma média genérica, e o hotel eficiente é contado como se fosse um hotel qualquer.
O segundo é a comunicação. Em outubro de 2025, o CONAR atualizou as regras do seu código para apelos de sustentabilidade. Elas exigem que as alegações ambientais sejam verdadeiras, exatas e comprováveis, e passam a tratar o greenwashing de forma explícita.
O terceiro é o hóspede estrangeiro. A Diretiva (UE) 2024/825 passa a valer em 27 de setembro de 2026. Na venda a consumidores europeus, ela proíbe três práticas:
- alegações ambientais genéricas, sem desempenho comprovado;
- selos de sustentabilidade que não venham de certificação por terceira parte ou de autoridade pública;
- alegações de neutralidade de carbono baseadas só em compensação.
Uma "hospedagem carbono neutro" sustentada apenas por créditos deixa de ser aceita nesse mercado.
Resumindo: o que já vale hoje não exige relatório regulatório. Exige que o hotel consiga provar o que afirma, por diária e por evento.
O Brasil tem demanda em alta e energia elétrica a favor
O contexto de negócio é favorável. Segundo a Embratur, o Brasil recebeu mais de 9 milhões de turistas internacionais em 2025, recorde histórico. A ocupação média da hotelaria nacional chegou a 62% no ano, segundo o Panorama da Hotelaria Brasileira. Para 2026, estão previstos 178 novos hotéis, cerca de 26 mil quartos e aproximadamente R$ 13,6 bilhões em investimento, o maior volume da série recente.
A matriz elétrica ajuda, mas muda o foco da medição. Segundo o Balanço Energético Nacional 2025, da EPE, 88,2% da eletricidade brasileira veio de fontes renováveis em 2024. Cada MWh gerado emitiu só 59,9 kg de CO2 equivalente. Por isso, o escopo 2 (energia elétrica comprada) de um hotel no Brasil tende a ser pequeno. O peso relativo passa para outras fontes: gás e diesel para aquecer água e cozinhar, gases refrigerantes do ar-condicionado, alimentos comprados e resíduos. O hotel que mede só a conta de luz mede a menor parte.
A estrutura de gestão já existe. A ABNT NBR 15401:2014 define requisitos de sistema de gestão da sustentabilidade para meios de hospedagem, e a HCMI está disponível para qualquer hotel. O que falta é um número do setor. Os estudos recorrentes do FOHB acompanham ocupação, diária média, RevPAR e canais de distribuição, e nenhum trata de emissões. Sobre carbono na hotelaria brasileira, o que existe são estudos acadêmicos pontuais, feitos cidade a cidade. Sem uma referência setorial, o hotel que tem o próprio número negocia com clientes e bandeiras a partir do próprio dado, e não de uma média importada.
Quem já está medindo lá fora
O grupo britânico da abertura tem meta validada pela SBTi: reduzir em 46%, até 2030, as emissões absolutas dos escopos 1, 2 e 3, incluindo os hotéis franqueados, frente a 2019. Em 2025, o próprio grupo reconheceu que está fora dessa trajetória. Ele atribui o atraso à falta de energia limpa em muitos mercados e à abertura de novos hotéis. O caso mostra por que a meta precisa ser lida em número absoluto, e não só por quarto.
Uma grande rede hoteleira americana, com mais de 9 mil propriedades, reduziu a intensidade de emissões de 117,0 para 98,6 kg de CO2 equivalente por metro quadrado climatizado entre 2019 e 2024, uma queda de 15,7%. No mesmo período, a soma dos três escopos caiu cerca de 6%. O escopo 3 respondeu por cerca de 65% do inventário de 2024. As duas métricas contam histórias diferentes, e só lidas juntas mostram o ritmo real.
Um grande grupo hoteleiro francês transformou o inventário em serviço para o cliente. Sua calculadora pública estima a pegada de cada estadia e de cada evento a partir de cinco fontes: energia, alimentos e bebidas, transporte, serviços do hotel e atividades. A base são dados reais de mais de 5.700 hotéis em 110 países. As metas do grupo, validadas pela SBTi, são reduzir 46% nos escopos 1 e 2 e 28% no escopo 3 até 2030, frente a 2019.
Conclusão
Na hotelaria, a métrica por quarto virou uma medida incompleta de desempenho. Ela melhora mesmo quando o total cresce, e costuma deixar de fora comida, franquias e resíduos. Quem compra a diária, seja uma empresa que relata suas viagens, uma bandeira que consolida franqueados ou um hóspede protegido por novas regras de consumo, passou a pedir o número completo.
A Planton estrutura o inventário de emissões de hotéis e redes com metodologia auditável, do consumo do prédio à cozinha e aos franqueados, e transforma esse dado em pegada por diária e por evento que o cliente corporativo consegue usar.
Fontes
- World Sustainable Hospitality Alliance, dados sobre a participação do setor nas emissões globais e trajetória de redução por quarto até 2030 e 2050
- Hotel Carbon Measurement Initiative (HCMI), World Sustainable Hospitality Alliance e World Travel & Tourism Council
- Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Food Waste Index Report 2024
- GHG Protocol, Corporate Value Chain (Scope 3) Standard: categoria 6 (viagens a negócios) e categoria 14 (franquias)
- HotelInvest e FOHB, Panorama da Hotelaria Brasileira
- Comissão de Valores Mobiliários, Resolução CVM 244, de 29 de maio de 2026
- CONAR, Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, atualização de outubro de 2025 sobre apelos de sustentabilidade
- União Europeia, Diretiva (UE) 2024/825, aplicável a partir de 27 de setembro de 2026
- Embratur, chegadas de turistas internacionais ao Brasil em 2025
- Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Balanço Energético Nacional 2025
- ABNT NBR 15401:2014, Meios de hospedagem: sistema de gestão da sustentabilidade
- Relatório anual e de sustentabilidade de grande grupo hoteleiro britânico, 2025
- Relatório de sustentabilidade e calculadora pública de pegada de estadias e eventos de grande grupo hoteleiro francês
- Relatório ESG de grande rede hoteleira americana, 2024





