A conta de carbono do automotivo desce a cadeia inteira
Aço e alumínio concentram boa parte do carbono do veículo. CBAM, Mover e o Catena-X já cobram esse dado de montadoras e autopeças.

Setor: Automotivo e autopeças
O aço responde por cerca de 60% do peso de um veículo e por 16% a 27% do carbono incorporado, conforme o modelo. Quando o CBAM começa a cobrar por tonelada de carbono embutida em aço e alumínio, a conta não para na montadora. Ela desce até o fornecedor de autopeças que nunca fez um inventário de emissões.
O escopo 3 é o setor inteiro
Numa montadora, cerca de 98% das emissões estão no escopo 3, com a maior parcela isolada na fase de uso dos veículos vendidos. O aço representa aproximadamente 27% das emissões de manufatura de um veículo a combustão e 15% de um elétrico, segundo o ICCT. Em um elétrico puro, aço, alumínio e bateria somam cerca de 75% das emissões de materiais.
No Brasil o recorte tem uma particularidade que vale como argumento comercial. Estudo da ANFAVEA com a BCG, divulgado em outubro de 2025, aponta que 87% a 91% das emissões de um automóvel a combustão ocorrem na fase de uso, contra 53% a 57% em veículos eletrificados, e mais de 94% em pesados a diesel. Já um caminhão elétrico urbano no Brasil concentra apenas 33% das emissões na fase de uso, contra mais de 70% em outros mercados, efeito direto da matriz elétrica nacional. Traduzindo: quando a operação migra para elétrico no Brasil, o peso relativo migra para os materiais, ou seja, para a cadeia de fornecedores.
Em volume, o setor de transporte brasileiro emitiu mais de 200 milhões de toneladas de CO2 equivalente, sendo 90% do modal rodoviário, com 76 milhões vindos de veículos leves e 166 milhões de pesados, segundo a ANFAVEA.
Três pressões que não dependem uma da outra
A primeira é de política industrial. O programa Mover, criado pela Lei 14.902/2024, distribui R$ 19,3 bilhões em crédito financeiro entre 2024 e 2028 e condiciona o benefício a investimento em pesquisa e desenvolvimento, com exigência de registro do ciclo de carbono do berço ao túmulo a partir de 2027. A regulamentação avançou em 2025 com decretos de métricas de sustentabilidade veicular e de IPI Verde, e com resolução do CNPE sobre cálculo de intensidade de carbono.
A segunda é de barreira comercial. O regime definitivo do CBAM começou em janeiro de 2026, com venda de certificados a partir de fevereiro de 2027 e primeira declaração em setembro de 2027. O ponto crítico para autopeças está na extensão proposta a cerca de 180 produtos downstream intensivos em aço e alumínio, com aplicação prevista a partir de 1º de janeiro de 2028. É isso que puxa componentes para dentro do mecanismo, mesmo quando o fabricante não exporta diretamente para a Europa.
A terceira é contratual, e já está valendo. O Catena-X, rede de dados da indústria automotiva para troca de pegada de carbono de produto, publicou em setembro de 2025 a versão 4 do seu rulebook, que torna obrigatórios a fronteira berço ao portão, o reporte da parcela de dado primário e a avaliação de qualidade do dado, com transição até 2027. Uma das maiores montadoras alemãs tornou o registro na rede parte oficial do processo de compras a partir de abril de 2025. Em paralelo, a parceria Drive Sustainability, que reúne 18 montadoras, atualizou em 2025 seu questionário de sustentabilidade para fornecedores com estrutura modular por porte e capacidade.
Nenhuma dessas três pressões depende das outras duas para valer. E todas exigem o mesmo insumo: dado primário, rastreável, por produto.
Quem já contratou o dado
Um grande grupo alemão fechou contratos de aço de baixo carbono cobrindo mais de 40% da demanda de suas fábricas europeias, com economia declarada de cerca de 400 mil toneladas de CO2 por ano e meta de até 50% de aço secundário até 2030. Outro fabricante alemão comprometeu compra de mais de 200 mil toneladas de aço de CO2 reduzido até 2030 para suas plantas europeias.
Na Suécia, uma montadora reportou em março de 2026 redução de 31% de CO2 por carro em relação à base de 2018, superando a própria meta do período, com objetivo de 65% a 75% até 2030.
O tamanho da lacuna, porém, é o dado mais útil de todos. Levantamento do ICCT mostra que os compromissos de aço fóssil-livre cobriam apenas 2% do aço usado por 17 montadoras estudadas, chegando a 4% quando se somam compromissos de aço de emissões reduzidas. O mercado de aço de baixo carbono ainda é pequeno, e quem chega com dado pronto negocia contrato antes de a demanda apertar o preço.
Conclusão
É relativamente simples medir a fábrica própria. O difícil, e o que a montadora efetivamente cobra, é medir a cadeia, muitas vezes composta por pequenas e médias empresas sem estrutura de sustentabilidade. Quem entrega esse dado primeiro entra na lista de fornecedores preferenciais antes de a exigência virar eliminatória.
A Planton estrutura o inventário de emissões e a pegada de carbono de produto de montadoras e fornecedores, e trabalha a maturação do escopo 3 com metodologia que resiste à auditoria de qualquer montadora global.





