Siderurgia entra na era do carbono precificado
CBAM e SBCE exigem intensidade de carbono por tonelada de aço, o dado que decide contratos, descontos no CBAM e investimentos em descarbonização.

Setor: Siderurgia e metalurgia
Quem importou aço para a Europa em 2026 já está acumulando um passivo de carbono, mesmo sem ter comprado um único certificado. O regime definitivo do CBAM começou em janeiro de 2026, mas a venda de certificados só abre em 1º de fevereiro de 2027, com liquidação retroativa do ano-calendário 2026. A conta já corre. O que muda em 2027 é a hora de pagá-la.
O carbono não é só energia, é química
A produção de aço responde por 7% a 8% das emissões antropogênicas globais de gases de efeito estufa, cerca de 4,1 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em 2024, com intensidade média de 2,18 tCO2e por tonelada de aço, segundo a worldsteel.
A origem do problema está na própria reação. Na rota integrada, o coque cumpre duas funções ao mesmo tempo: retira o oxigênio do minério de ferro e entra na composição do produto final, porque o aço é uma liga de ferro e carbono. O CO2 é subproduto inevitável da redução, não apenas da queima. Trocar a fonte de energia do forno não resolve. Por isso as rotas de descarbonização profunda trocam o agente redutor ou eliminam a etapa de redução, com sucata em forno elétrico.
No Brasil, a produção de ferro e aço emitiu 46 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2020, cerca de 2% do total nacional, segundo o BNDES. Em 2024 o país produziu 33,88 milhões de toneladas de aço bruto, sendo 75,2% por aciaria a oxigênio e 23,5% por forno elétrico, conforme o Instituto Aço Brasil. A diferença de intensidade entre essas rotas é enorme: 2,2 tCO2e por tonelada nas integradas a coque, 0,7 nas integradas a carvão vegetal e 0,4 nas semi-integradas. Dentro do mesmo setor, duas usinas podem ter pegadas cinco vezes diferentes.
O calendário regulatório já separa quem é quem
O SBCE, mercado brasileiro de carbono criado pela Lei 15.042/2024, tem limiares definidos em lei: acima de 10 mil toneladas de CO2 equivalente por ano, plano de monitoramento e relato de emissões; acima de 25 mil toneladas, também conciliação periódica de obrigações.
A proposta de cobertura setorial submetida a consulta pública pela Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, encerrada em 28 de agosto de 2026, traz um detalhe que muda o planejamento de cada usina: a siderurgia integrada entra na Fase 1, a partir de 2027, junto com cimento, alumínio primário, refino, petróleo e gás, papel e celulose e transporte aéreo. A siderurgia semi-integrada só entra na Fase 2, em 2029. São dois anos de diferença para preparar o mesmo dado. Vale registrar que o faseamento ainda é proposta em consulta, não norma vigente.
Em paralelo corre o CBAM. O período definitivo começou em 1º de janeiro de 2026, com obrigação de registro como declarante autorizado e verificação das emissões reais por terceira parte. A venda de certificados foi adiada para 1º de fevereiro de 2027 pelo Regulamento (UE) 2025/2083, e a primeira declaração anual vence em 30 de setembro de 2027, cobrindo as importações de 2026. O primeiro preço publicado pela Comissão Europeia, referente ao primeiro trimestre de 2026, foi de 75,36 euros por tonelada. A multa harmonizada para o declarante autorizado que não cobrir suas emissões é de 100 euros por tonelada.
Para o Brasil, essa é uma exposição concentrada: ferro e aço respondem por cerca de 95% das exportações brasileiras atingidas pelo mecanismo. Quem não apresenta emissões reais verificadas paga pelo valor padrão europeu, historicamente acima da média efetiva da indústria brasileira. O dado próprio, nesse caso, é desconto direto na fatura.
O que a fronteira tecnológica já entregou
Na Suécia, a conversão da usina de Luleå para forno elétrico com ferro-esponja fóssil-livre, decidida em 2024 com investimento de 4,5 bilhões de euros e capacidade de 2,5 milhões de toneladas por ano, reduz sozinha 7% das emissões totais de CO2 do país. Somada à conversão de Oxelösund, chega a 10%. A partida está prevista para o fim de 2028. O ponto mais relevante para um gestor não é a tecnologia: é que a companhia projeta melhora anual de EBITDA superior a 5 bilhões de coroas suecas, em parte justamente por eliminar custo de carbono.
Também na Suécia, a planta greenfield de aço por hidrogênio verde em Boden projeta redução de até 95% frente à rota convencional e 33,6 milhões de toneladas de CO2 equivalente evitadas nos dez primeiros anos, segundo a ficha do EU Innovation Fund. O caso serve também como alerta de custo: o projeto enfrentou estouro de orçamento e atraso de cronograma e precisou captar 1,4 bilhão de euros em junho de 2026, chegando a cerca de 8 bilhões de euros de financiamento acumulado.
Na Coreia do Sul, uma planta de demonstração de 300 mil toneladas por ano em Pohang testa redução por hidrogênio em leito fluidizado, com meta de intensidade próxima de 0,40 tCO2e por tonelada de aço bruto e entrada em operação entre 2027 e 2028.
Conclusão
Nenhuma dessas decisões começou por exigência legal. Todas começaram por um número: a intensidade de carbono por tonelada, medida com metodologia que resiste à verificação de terceira parte. Sem esse número, não há contrato de aço de baixo carbono, não há desconto no CBAM e não há plano de monitoramento para entregar em 2027.
A Planton estrutura o inventário de emissões e a pegada de carbono do produto com metodologia auditável e uma equipe que acompanha cada etapa da coleta, sem depender de planilhas soltas ou dados incompletos. É o primeiro passo antes de qualquer meta de descarbonização ter credibilidade.





