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A meta climática do seu banco passa pela sua empresa

·1 min de leitura

A SBTi manteve sem prazo os critérios de metas para bancos. Como a meta do banco é feita das emissões da carteira, o pedido de dados chega à sua empresa.

Em 8 de outubro de 2026, a Science Based Targets initiative (SBTi), principal referência mundial para metas de redução de emissões, confirmou que os critérios de metas de curto prazo para instituições financeiras continuam disponíveis sem data para acabar. A revisão desses critérios estava prevista para 2027.

A decisão parece técnica e restrita a bancos. Não é. Mais de 180 instituições financeiras já têm metas validadas pela SBTi, e cerca de um terço delas são bancos. A meta de uma instituição financeira não é feita das emissões dos seus escritórios. É feita das emissões das empresas que ela financia.

Com a regra sem prazo de validade, as instituições ganham segurança para manter essas metas pelo ciclo inteiro. Para quem toma crédito ou recebe investimento, isso significa que as perguntas sobre emissões vão continuar chegando.

Onde estão as emissões de um banco

O impacto climático de uma instituição financeira está na carteira, não no escritório. Em 2021, o CDP analisou as respostas de 332 instituições financeiras ao seu primeiro questionário de clima para o setor, com dados de 2020. Entre as que mediram a carteira, as emissões financiadas foram, em média, mais de 700 vezes maiores que as emissões diretas.

Para um banco, reduzir emissões significa olhar para a carteira. E a carteira é feita de empresas como a sua.

Emissões financiadas são as emissões das empresas e projetos que recebem empréstimos ou investimentos, atribuídas à instituição na proporção do valor financiado. Para o banco, elas entram no escopo 3, na categoria de investimentos.

Como a meta do banco chega até a sua empresa

Os critérios da SBTi para instituições financeiras oferecem caminhos diferentes para definir metas. Dois deles dependem diretamente do comportamento dos clientes.

  • Cobertura da carteira. A instituição se compromete a aumentar, ano a ano, a parcela de clientes que têm metas próprias validadas pela SBTi, até chegar a 100% da carteira em 2040. No exemplo da própria SBTi, uma carteira com 10% de cobertura em 2020 precisaria chegar a pelo menos 32,5% em 2025. Cada cliente sem meta validada conta como zero.
  • Temperatura da carteira. A instituição calcula o aquecimento associado à carteira a partir das metas dos clientes. Até 2040, essa temperatura precisa estar alinhada a 1,5°C para os escopos 1 e 2 e bem abaixo de 2°C quando o escopo 3 entra na conta.

Os outros dois caminhos são metas de intensidade de emissão por setor, voltadas a setores intensivos, e metas específicas para o financiamento de combustíveis fósseis.

As regras também definem quanto da carteira precisa estar coberto. As metas devem alcançar pelo menos 67% da carteira considerada. Empréstimos de longo prazo a empresas de capital aberto precisam estar 100% cobertos, assim como os financiamentos a geração de energia e a combustíveis fósseis. Para empresas de capital fechado, a inclusão é opcional nesse padrão.

A SBTi registra, no próprio anúncio de outubro, que muitas instituições já usam a validação de metas como sinal na hora de avaliar condições de crédito e o valor das empresas da carteira.

O calendário brasileiro

No Brasil, a pressão sobre os bancos também vem do regulador.

  • Resolução CMN nº 5.185, de 21 de novembro de 2024. Obriga instituições financeiras a publicar um relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, com base nos pronunciamentos CBPS 01 e CBPS 02, a versão brasileira das normas IFRS S1 e S2. Vale a partir do exercício de 2026 para companhias abertas e líderes de conglomerados dos segmentos S1 e S2, e a partir de 2028 para as demais. O relatório passa por asseguração razoável de auditor independente.
  • O que a norma de clima pede aos bancos. A IFRS S2, base do CBPS 02, exige que instituições com atividade de banco comercial divulguem as emissões financiadas por setor e por tipo de ativo, como empréstimos, financiamento de projetos e investimentos. A norma brasileira prevê adoção gradual nos primeiros ciclos.
  • Resolução CVM nº 244, de 29 de maio de 2026. Tornou voluntário, para as companhias abertas em geral, o relatório de sustentabilidade que seria obrigatório a partir de 2026. Quem não publicar precisará explicar o motivo ao mercado a partir de 2027. A mudança não altera a regra do CMN para as instituições financeiras.

A obrigação de reportar ficou opcional para muitas empresas, mas continua valendo para os grandes bancos. E o banco só consegue reportar bem o que o cliente informa.

Sem dado próprio, a empresa vira estimativa

Para medir emissões financiadas, a referência mais usada pelo mercado é o padrão do PCAF (Partnership for Carbon Accounting Financials), iniciativa com mais de 750 instituições financeiras signatárias. O padrão classifica a qualidade de cada dado numa escala de 1, o mais confiável, a 5, o mais incerto.

Quando o cliente não entrega as próprias emissões, a instituição estima. Uma estimativa não enxerga o que a empresa já fez: a troca de combustível, a eficiência energética, a compra de energia renovável. A empresa passa a ser avaliada por uma aproximação, não pelo próprio desempenho.

O caminho inverso tem retorno. Segundo dados da SBTi, 80% das empresas com metas baseadas na ciência dizem que as metas fortaleceram a relação com investidores, e 44% relatam melhora no acesso a capital.

O que fazer agora

  1. Ter um inventário de emissões confiável. Escopos 1, 2 e 3, seguindo o GHG Protocol, com rastro de cada número até a origem. É o dado que o banco vai pedir e que uma verificação externa vai checar.
  2. Transformar o inventário em plano. Uma meta só se sustenta com projetos de redução priorizados por impacto e custo. É esse plano que permite submeter uma meta à validação da SBTi com segurança.
  3. Levar o dado antes da pergunta. Empresas que chegam à mesa de crédito com inventário e meta mostram gestão de risco, e deixam de depender das estimativas de terceiros.

Conclusão

A decisão da SBTi dá estabilidade a uma tendência que já estava em curso: o desempenho climático das empresas entrou na análise de crédito e de investimento. Para quem toma decisões de sustentabilidade, isso muda o argumento interno. O inventário de emissões deixa de ser um relatório para o site e passa a ser informação que melhora a conversa com o banco.

O Inventário de Emissões by Planton Genius foi desenhado para esse momento. O inventário fecha travado, e cada tonelada tem rastro até a linha que a originou e o fator usado, com versão e fonte. A partir dele, a Jornada de Descarbonização, com curva MAC, identifica os projetos que tornam a meta possível.

Fontes

  • Science Based Targets initiative (SBTi). Financial Institutions Near-Term Criteria to continue without end date. Anúncio de 8 de outubro de 2026.
  • Science Based Targets initiative (SBTi). Financial Institutions Near-Term Criteria, versão 2.0, maio de 2024.
  • Science Based Targets initiative (SBTi). Near-term and net-zero: understanding the SBTi's frameworks for financial institutions, 2025, com atualização de outubro de 2026.
  • CDP. The Time to Green Finance. Relatório de 28 de abril de 2021, com dados do questionário de 2020 para o setor financeiro.
  • Conselho Monetário Nacional. Resolução CMN nº 5.185, de 21 de novembro de 2024 (DOU de 25/11/2024).
  • Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS). Pronunciamentos Técnicos CBPS 01 e CBPS 02, aprovados em 12 de setembro de 2024.
  • IFRS Foundation / ISSB. IFRS S2 Climate-related Disclosures, parágrafos 29(a)(vi) e B58 a B63.
  • Comissão de Valores Mobiliários. Resolução CVM nº 244, de 29 de maio de 2026, que altera a Resolução CVM nº 193, de 20 de outubro de 2023.
  • Partnership for Carbon Accounting Financials (PCAF). Global GHG Accounting and Reporting Standard, Parte A: Financed Emissions.