Na saúde, 71% do carbono está na cadeia
No setor de saúde, 71% das emissões estão no escopo 3. Cadeia fria, logística farmacêutica e medicamentos comprados definem a real pegada de carbono do varejo.

Setor: Varejo farmacêutico e saúde
O setor de saúde responde por 4,4% das emissões líquidas globais, cerca de 2 gigatoneladas de CO2 equivalente. Dentro dessa conta, 17% estão em escopo 1, 12% em escopo 2 e 71% em escopo 3. Para uma rede de farmácias, isso significa que a maior parte do carbono entra pela porta junto com o produto que ela vende.
Onde a pegada realmente nasce
A composição mais granular disponível vem do sistema público de saúde britânico: medicamentos e prescrições respondem por 17% da pegada ampliada, consumíveis clínicos e equipamentos somam outros 18%, e gases anestésicos e analgésicos ficam com cerca de 2%.
No varejo farmacêutico, três vetores concentram o que a rede controla ou influencia. O primeiro é a refrigeração: em varejo alimentar, até 70% das emissões de escopos 1 e 2 vêm de sistemas de refrigeração, somando consumo de energia e gases fluorados, uma referência aplicável por analogia a lojas e centros de distribuição com câmara fria. O segundo é a logística capilar de reposição contínua. O terceiro, e maior, é o escopo 3 dos medicamentos adquiridos, que a rede só enxerga se engajar fabricantes.
O contexto de negócio ajuda a justificar o investimento. O varejo farmacêutico brasileiro faturou R$ 243,33 bilhões nos doze meses até novembro de 2025, alta de 10,81%, segundo a IQVIA. O segmento cresceu 4,5% em 2025 pelo IBGE, bem acima do 1,6% do varejo restrito. Ao mesmo tempo, houve saldo negativo de 1.096 lojas em doze meses até outubro de 2025. O setor cresce faturamento e concentra operação, o que significa mais volume passando por menos ativos e mais pressão sobre eficiência logística.
A exigência chega pelo cliente antes de chegar pela lei
Aqui está o prazo mais concreto do setor, e ele não é brasileiro. A partir de abril de 2027, fornecedores do sistema público de saúde britânico com contratos de 5 milhões de libras por ano ou mais precisarão apresentar planos de redução de carbono cobrindo escopos 1, 2 e todas as categorias relevantes de escopo 3, com fronteira geográfica global e publicação no próprio site do fornecedor. Isso alcança exportadores brasileiros de insumos, dispositivos médicos e genéricos, e chega antes do primeiro reporte do SBCE.
No Brasil, o quadro mudou em 2026 e merece precisão. A Resolução CVM 244, de 29 de maio de 2026, tornou voluntária a divulgação nos padrões IFRS S1 e S2. Em contrapartida, as regras antigreenwashing do CONAR, vigentes desde novembro de 2025, exigem lastro técnico para qualquer alegação ambiental, e a Diretiva (UE) 2024/825, aplicável a partir de 27 de setembro de 2026, proíbe alegações de neutralidade baseadas em compensação para quem vende no bloco.
O tamanho do ganho, em números auditados
O sistema público de saúde britânico reduziu suas emissões de 14,5 para 4,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente entre 1990 e o exercício 2024/25, queda de 68%, com 14% concentrados nos cinco anos posteriores à publicação da estratégia de net zero. Por frente: desflurano com queda de 98%, o equivalente a 41 mil toneladas; inaladores com queda de 33%, mais de 340 mil toneladas; e óxido nitroso com mais de 80 mil toneladas reduzidas e 2,3 milhões de libras de custo anual evitado.
Na indústria, uma grande farmacêutica britânica reduziu 36% dos escopos 1 e 2 frente à base de 2020, com queda de 12% só em 2024, no mesmo ano em que reportou vendas 8% maiores e lucro operacional core 13% maior. É o exemplo mais direto de desacoplamento entre crescimento e emissão. A mesma companhia declara que cerca de 94% de sua pegada está fora das operações próprias.
Há ainda um ângulo pouco explorado no Brasil e especialmente útil para o varejo farmacêutico. Dados de uma farmacêutica anglo-sueca mostram que um paciente com asma bem controlada tem pegada três vezes menor do que um paciente com asma mal controlada, e que uma internação por DPOC produz emissões cerca de 75% maiores que o manejo ambulatorial. Desfecho clínico é variável de carbono. Isso conecta serviços farmacêuticos, acompanhamento e adesão terapêutica a resultado climático mensurável.
Conclusão
A cadeia fria e a malha logística farmacêutica escondem uma pegada relevante que a maioria das redes ainda não mede linha a linha, e o maior bloco de carbono está nos produtos comprados. Quem antecipa esse mapeamento chega pronto quando o cliente institucional, o investidor ou o fornecedor internacional cobrar o dado, e descobre no caminho que eficiência energética e adesão terapêutica pagam a conta duas vezes.
A Planton estrutura esse inventário considerando as particularidades da cadeia fria e da logística farmacêutica, e trabalha o escopo 3 junto aos fornecedores, com clareza sobre onde cada tonelada de carbono realmente nasce.





