Na moda, 77% do carbono acontece antes da confecção
Na moda, 77% do carbono vem da matéria-prima e do beneficiamento têxtil, não da confecção. A Europa já exige prova por peça, não só discurso de marca.

Setor: Moda e têxtil
A indústria de vestuário emitiu 1,004 gigatonelada de CO2 equivalente em 2024, alta de 6,3% sobre 2023 e segundo ano consecutivo de crescimento nas emissões do setor, segundo o relatório Taking Stock 2026, do Apparel Impact Institute.
O mapa da emissão está invertido em relação ao mapa da auditoria
O Taking Stock organiza a cadeia em quatro elos: extração e processamento primário da matéria-prima, processamento intermediário, manufatura de materiais e beneficiamento têxtil, e confecção do produto acabado. Na edição mais recente da série, a soma de matéria-prima e beneficiamento têxtil responde por 77% da conta. A confecção, elo que a maioria das marcas audita primeiro, fica com menos de um décimo.
Tudo isso é escopo 3 categoria 1 para uma marca de moda: bens e serviços comprados. O elo que a marca visita, audita e conhece pelo nome é justamente o menor pedaço da pegada.
A escolha de matéria-prima explica boa parte do movimento. Segundo o Materials Market Report 2025, da Textile Exchange, a produção global de fibras chegou a cerca de 132 milhões de toneladas em 2024. O poliéster representa 59% desse volume, com 88% de origem fóssil (virgem, ante 12% reciclado), e é o maior contribuinte individual para as emissões do setor de vestuário, têxtil lar e calçados: cerca de 43% do impacto total de gases de efeito estufa.
O calendário europeu já tem duas datas firmes e uma indefinida
A primeira já tem data marcada. A Diretiva (UE) 2024/825 passa a ser aplicável a partir de 27 de setembro de 2026 e proíbe três práticas comuns na moda: alegações ambientais genéricas, como “sustentável”, “verde” ou “eco”, sem comprovação de desempenho reconhecido; alegações de neutralidade de carbono ou impacto reduzido baseadas em compensação de emissões; e selos de sustentabilidade que não venham de autoridade pública ou de esquema de certificação com verificação por terceira parte.
A segunda é francesa e chega em 1º de outubro de 2026. O Decreto 2025-957, de 6 de setembro de 2025, instituiu, em regime voluntário desde 1º de outubro de 2025, a exibição do custo ambiental de peças de vestuário, calculado pela metodologia oficial Ecobalyse, com 16 indicadores de ciclo de vida distribuídos em quatro categorias (clima, biodiversidade, saúde ambiental e recursos) e um coeficiente de durabilidade que penaliza ou favorece o resultado conforme a vida útil estimada da peça. A partir de 1º de outubro de 2026 caem duas restrições transitórias: qualquer terceiro passa a poder calcular e publicar o custo ambiental de uma marca, com ou sem o seu consentimento; e marcas que já comunicam qualquer outra alegação ambiental em produtos vendidos na França passam a ser obrigadas a exibir o custo ambiental oficial, mesmo sem tê-lo calculado. A regra alcança produtores, importadores e distribuidores, independentemente da origem.
A terceira data ainda não existe, e vale dizer isso com clareza em vez de repetir o que circula. O Passaporte Digital de Produto, previsto no regulamento europeu de ecodesign (ESPR), tem ato delegado para têxteis indicado para 2027, conforme o plano de trabalho da Comissão Europeia adotado em abril de 2025, com conformidade estimada para o fim de 2028 ou início de 2029. Até o fechamento deste estudo, nenhum ato delegado havia sido adotado. Já a diretiva europeia sobre alegações verdes não foi retirada nem arquivada: seus trílogos estão suspensos desde junho de 2025, sem previsão de retomada, mesmo após a Comissão Europeia sinalizar intenção de recuar da proposta.
A leitura estratégica dessas três situações é a mesma. O que já está valendo não exige que a marca publique um passaporte completo. Exige que ela consiga provar o que afirma. E provar exige dado por peça.
A cadeia brasileira sabe auditar, mas não foi desenhada para auditar carbono
O setor têxtil e de confecção brasileiro movimentou cerca de R$ 221 bilhões em 2024, reúne 25,7 mil unidades produtivas formais e emprega 1,34 milhão de pessoas de forma direta, segundo a ABIT. O país está entre os cinco maiores produtores e consumidores mundiais de denim e é o quinto maior mercado consumidor de vestuário do mundo.
Existe também uma infraestrutura de auditoria de fornecedores madura. O programa de certificação do varejo têxtil brasileiro reúne mais de 3,5 mil empresas aprovadas, em mais de 600 municípios de 18 estados, cobrindo mais de 350 mil empregos diretos, segundo a ABVTEX. A capacidade de auditar cadeia, portanto, já existe e está instalada.
O problema é de escopo, não de capacidade. O programa foi desenhado para conformidade social, condições de trabalho e combate ao trabalho análogo ao escravo, e não exige inventário de emissões. Existe um indicador de intensidade divulgado pela CNI: entre 2000 e 2024, a produção do setor têxtil cresceu 18% e as emissões diretas de CO2 caíram mais de 70%. É um dado real, mas mede eficiência energética por unidade produzida, não substitui um inventário. Não existe, publicado por ABIT, SEEG ou CNI, um inventário agregado do setor têxtil brasileiro construído com metodologia GHG Protocol e aberto por escopos 1, 2 e 3. Quando nem o setor tem esse número, a marca que tiver o dela sai na frente com pouca concorrência direta.
Quem já está medindo lá fora
Um grande grupo sueco de moda rápida reportou, até o fim de 2025, redução de 41% em escopos 1 e 2 e de 35% em escopo 3 absoluto (excluindo a fase de uso) frente à base de 2019, com metas validadas pela SBTi desde 2022. A alavanca operacional mais concreta foi bem menos glamourosa do que a comunicação costuma sugerir: caldeiras a carvão na cadeia de fornecedores, nos três primeiros níveis, caíram de 118 para 10 entre 2022 e 2025, rumo à eliminação total até o fim de 2026.
Um grande grupo espanhol tem meta de reduzir o escopo 3 em 51% até 2030 frente à base de 2018. O resultado de 2024 mostra por que o dado granular importa: as emissões de bens e serviços comprados, a maior categoria da empresa, caíram 6% frente a 2023, enquanto as de transporte e distribuição upstream subiram 10% no mesmo período. Mesmo com a melhora na compra de materiais (fibras recicladas saltaram de 18% para 33% da matéria-prima), o escopo 3 total do grupo seguiu acima do patamar de 2018. Sem abertura por categoria, o número consolidado esconderia exatamente onde a meta está patinando.
E há o caminho do rótulo. Uma marca americana de calçados foi a primeira do setor a exibir a pegada de carbono em todos os seus produtos, em 2020, no formato de tabela nutricional. Em 2023, reportou redução de 22% na pegada média por produto frente ao ano anterior, chegando a 5,54 kg de CO2 equivalente por item, com embalagem e energia renovável entre os principais fatores do ganho.
Conclusão
Reputação de sustentabilidade na moda deixou de ser ativo autoevidente. Com a diretiva europeia de consumidores entrando em vigor e a regra francesa permitindo que qualquer terceiro calcule e publique o escore de uma marca sem pedir licença, uma alegação sem inventário por trás deixa de ser ativo de marca e passa a ser passivo. O caminho contrário também é verdadeiro: quem tem o dado por peça chega ao mercado europeu com uma barreira a menos e uma prova a mais.
A Planton estrutura o inventário de emissões e a pegada de carbono de produto com metodologia que resiste à auditoria internacional, transformando discurso de marca em número verificável, peça a peça.





