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Cimento chega à primeira fase do carbono regulado

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Mais da metade da emissão do cimento vem da calcinação, não do combustível. Setor entra na Fase 1 do SBCE em 2027.

Trabalhador com capacete branco e colete de segurança em fábrica de cimento, próximo a forno industrial

Mais da metade da emissão do cimento não vem do combustível. Vem da reação química que transforma calcário em clínquer. Um forno movido a energia 100% renovável continuaria emitindo. É por isso que o setor entra na primeira fase do mercado regulado brasileiro de carbono, e é por isso que a próxima fronteira do setor exige um nível de dado que a média da indústria ainda não produz.

A emissão nasce da reação, não do forno

Segundo a IRENA, as emissões da produção de cimento se dividem em calcinação 53%, energia térmica 35% e eletricidade e demais processos 12%. A produção do clínquer concentra cerca de 90% do total. O setor responde por algo entre 6% e 8% das emissões globais, com estimativas de volume entre 1,6 e 2,2 gigatoneladas de CO2 por ano, a depender da fronteira de contabilização adotada.

Essa divisão define quais alavancas existem. Coprocessamento de resíduos ataca os 35% de energia térmica. Redução do fator clínquer, com adições, ataca o volume de material calcinado por tonelada de cimento. E a captura de carbono é a única alavanca capaz de endereçar diretamente os 53% da calcinação.

O Brasil chega à régua com desempenho acima da média

Esse é um setor em que o enquadramento honesto não é o de atraso. No lançamento do Roadmap Net Zero durante a COP30, em novembro de 2025, ABCP e SNIC registraram intensidade de 580 kg de CO2 por tonelada de cimento no Brasil, contra média mundial de 610 kg. O país tem mais de 30% da matriz térmica em combustíveis alternativos, posição atrás apenas da União Europeia, e coprocessou cerca de 3,25 milhões de toneladas de resíduos em 2023, o maior volume já registrado, evitando cerca de 3,4 milhões de toneladas de CO2. O fator clínquer nacional está em torno de 68%, com cenário de redução para 52%.

A leitura correta, portanto, é outra: o setor brasileiro já capturou boa parte dos ganhos mais acessíveis. O que resta pela frente exige investimento estrutural e, antes disso, um inventário detalhado o suficiente para dizer quanto cada alavanca ainda pode entregar em cada planta.

O calendário ajuda a dimensionar a urgência. A proposta de cobertura setorial do SBCE em consulta pública, encerrada em agosto de 2026, coloca o cimento integralmente na Fase 1, a partir de 2027, com ciclo de três a quatro anos: entrega do plano de monitoramento no primeiro ano, monitoramento e coleta no segundo, relatório verificado a partir do terceiro. Diferentemente da siderurgia, a pressão sobre o cimento brasileiro vem do mercado interno, não do CBAM, porque as vendas do setor são essencialmente domésticas: 67 milhões de toneladas em 2025, alta de 3,7% sobre 2024.

A próxima fronteira é a emissão de processo

Em junho de 2025 entrou em operação na Noruega a primeira instalação de captura de carbono em escala industrial da indústria de cimento no mundo. A planta captura cerca de 400 mil toneladas de CO2 por ano, o equivalente a 50% das emissões do site, com transporte por navio e armazenamento permanente sob o Mar do Norte. As primeiras entregas do cimento resultante começaram em outubro de 2025.

Na frente de produto, o maior grupo cimenteiro do mundo fechou 2025 com intensidade de escopo 1 de 502 kg de CO2 por tonelada de material cimentício, contra 515 kg em 2024 e cerca de 564 kg na linha de base de 2020, com meta de ficar abaixo de 400 kg em 2030. O cimento de baixo clínquer chegou a 36% das vendas líquidas de cimento e o concreto de baixa emissão a 31% das vendas de concreto. Vale a ressalva técnica: esse indicador usa material cimentício como denominador e não é diretamente comparável com os 580 kg por tonelada de cimento do agregado brasileiro.

E há a rota que tenta eliminar a calcinação em vez de capturá-la. Nos Estados Unidos, uma planta comercial em Massachusetts desenvolve cimento por processo eletroquímico à temperatura ambiente, sem forno e sem decomposição de calcário, com US$ 87 milhões do Departamento de Energia e US$ 75 milhões aportados por dois grandes grupos globais de materiais de construção.

Conclusão

Quando um setor já está acima da média mundial e ainda assim entra na primeira fase da regulação, o diferencial deixa de ser a média e passa a ser a granularidade. Saber a intensidade da planta, da linha e do produto é o que permite decidir onde o próximo real investido derruba mais tonelada.

A Planton estrutura esse inventário de forma auditável e conecta o dado à jornada de descarbonização, com a curva MAC indicando quais projetos de redução fazem mais sentido para a realidade de cada operação.